Notícias

Conexão Alece debate os impactos da solidão na era digital

Por Odara Creston
14/09/2026 11:44 | Atualizado há 35 minutos

Compartilhe esta notícia:

Conexão Alece debate os impactos da solidão na era digital - Foto: Bia Medeiros

O Conexão Alece, programa multiplataforma da Alece FM, recebeu, na manhã desta segunda-feira (14/09), a psicóloga e suicidologista Ana Patricia de Aragão. Durante a entrevista, ela falou sobre as nuances da solidão na era digital, diferenciando-a do conceito positivo de solitude. Ela ainda debateu como o uso excessivo das redes sociais e a busca por padrões irreais podem intensificar o isolamento. A especialista também abordou a importância de se falar sobre esse assunto durante o Setembro Amarelo e em todos os meses do ano.

Ana Patricia de Aragão explicou o paradoxo da hiperconexão. “Nós vivemos cercados de telas, mensagens e redes sociais, mas enfrentamos uma epidemia velada de isolamento. E a gente trouxe esse tema no Setembro Amarelo porque sabemos que o começo da depressão surge, em muitos casos, de um isolamento, desse sentimento de você não estar pertencendo”, relatou.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada cinco pessoas vive em situação de solidão. No Brasil, estima-se que 15 milhões de pessoas enfrentam esse sentimento. “Hoje, por mais que a gente tenha as redes sociais, elas não são uma conexão olho no olho. Há uma grande diferença entre o olho no olho, o toque físico e até a proximidade, porque o ser humano é um ser sociável; ele precisa dessa conexão”, explicou.

A psicóloga destacou que o Setembro Amarelo é o mês de prevenção ao suicídio e que essas pautas devem ser ainda mais retratadas, porém não podem ficar esquecidas nos outros 11 meses do ano. “O ano inteiro a gente tem que falar sobre saúde mental, o cuidado e a prevenção de casos extremos”, disse.

A FRONTEIRA ENTRE A SOLIDÃO E A SOLITUDE

A solidão é a dor emocional causada pelo sentimento de não pertencimento e pela perda de identidade. “Ocorre quando a pessoa não tolera a própria companhia e busca distrações superficiais ou até vícios para fugir de si mesma. Já a solitude é a capacidade saudável de gostar da própria companhia, estar em paz consigo mesmo e exercer o autocuidado sem necessidade de aprovação externa”, exemplificou.

Ana Patricia refletiu que os pensamentos depressivos impedem o indivíduo de ter uma autoconversa para tentar melhorar. “Os pensamentos não param, é como se a mente da pessoa estivesse com uma multidão de burburinhos que não permitem ao indivíduo pensar racionalmente. Então acaba que ocorrem muitos casos de dependência alcoólica, química e vícios em bets”, comentou. Esses vícios são o resultado da busca direta de “fugas psicológicas da conexão consigo mesmo”.

REDES SOCIAIS, APARÊNCIA E A GERAÇÃO DO QUARTO

Durante a entrevista, também foi debatida a armadilha dos filtros e das aparências nas redes sociais digitais. A psicóloga apresentou que cultura de performance, vidas perfeitas e filtros criam o "homem aparência" em detrimento do "homem essência".

“Eu tento ser o mais verdadeira possível na forma como me apresento socialmente. Tem um pouco da minha essência ali, mas não posso ser completamente a Ana Patricia que fica em casa brincando com o cachorro e com o sobrinho. Quando criamos uma imagem que não corresponde a quem realmente somos, podemos acabar nos distanciando da nossa própria essência, e isso pode levar ao adoecimento. É um dos impactos que o excesso de exposição nas redes sociais pode causar”, exemplificou.

Ela também destacou a pressão provocada pela comparação como um fator de risco à saúde mental de jovens e adultos, que podem adoecer ao confrontarem suas rotinas reais com padrões inalcançáveis de beleza, consumo e sucesso precoce. A especialista chamou atenção ainda para a chamada “geração do quarto”, marcada pelo isolamento de jovens que substituem encontros presenciais pelas interações por meio das telas.

Segundo ela, a conexão virtual não substitui aspectos da convivência presencial, como o contato olho no olho, a risada compartilhada e a troca proporcionada pela presença física. Em casos mais severos, o isolamento pode levar a quadros de intensa reclusão social, como os associados ao fenômeno conhecido como hikikomori, termo de origem japonesa que significa “isolado em casa”.

O ISOLAMENTO NA TERCEIRA IDADE

A aposentadoria também pode representar um período de vulnerabilidade para a saúde mental dos idosos. A mudança de rotina e a perda de uma participação mais ativa na dinâmica familiar, inclusive do papel de provedor, podem favorecer sentimentos de invisibilidade, isolamento e quadros de depressão. “O cenário exige atenção diante dos índices de mortes por suicídio entre a população idosa no Brasil, especialmente quando associados à ausência de redes de apoio e de espaços de escuta”, debateu.

Como forma de prevenção, a especialista ressalta a importância de estimular a reinserção dos idosos no convívio social e a construção de novos projetos e rotinas. Atividades como viagens em grupo, leituras e outras experiências coletivas podem contribuir para fortalecer vínculos, ampliar a socialização e proporcionar novas perspectivas para essa fase da vida.

A especialista também defende uma abordagem biopsicossocial-espiritual do cuidado que considere o indivíduo em suas dimensões física, emocional, social e espiritual. Entre as estratégias para promover a saúde mental e a qualidade de vida, ela destaca a prática regular de exercícios físicos, a participação em grupos e nas atividades comunitárias e a psicoterapia, apontada como uma importante ferramenta de autoconhecimento e compreensão das próprias emoções.

SERVIÇO

Produzido por Kássia Braga e apresentado por Kézya Diniz, o programa Conexão Alece vai ao ar às segundas-feiras, na Alece FM, a partir das 8h, com reprises na Alece TV, às 20h30.

Edição: Lusiana Freire

Veja também