Ciadi finaliza ações do Abril Azul com palestra sobre o autismo feminino e a invisibilidade do diagnóstico
Por Amanda Andrade29/04/2026 17:53 | Atualizado há 2 horas
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A Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) realizou, na tarde desta quarta-feira (29/04), no Auditório Murilo Aguiar, o IV Seminário do Transtorno do Espectro Autista (TEA), com o tema “Autismo feminino e a invisibilidade no diagnóstico”. Promovido pelo Centro Inclusivo para Atendimento e Desenvolvimento Infantil (Ciadi), o evento marcou o encerramento da programação da Campanha Abril Azul, mês dedicado à conscientização sobre o autismo.
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Assessora especial de Gestão de Saúde e Assistência Social do DSAS, Ana Alice Falcão - Foto: Pedro Albuquerque
A assessora especial de Gestão de Saúde e Assistência Social do Departamento de Saúde e Assistência Social (DSAS) da Alece, Ana Alice Falcão, destacou o papel da Casa na promoção de debates relevantes e urgentes para a sociedade, especialmente quando se trata de pautas ainda invisibilizadas. “A Alece, como sempre, tem sido pioneira em algumas discussões importantes que estão junto da sociedade”, afirmou.
Ela também enfatizou que o diagnóstico é determinante para a qualidade de vida das pessoas com TEA, sobretudo das mulheres, e que, em razão disso, esse momento de debate se mostra de suma importância. Para ela, discutir o autismo feminino é também discutir desigualdades e ampliar o acesso à informação e ao cuidado.
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Psicóloga do Ciadi Ana Beatriz Pinheiro - Foto: Pedro Albuquerque
Antes do início das palestras, adolescentes atendidos pelo Ciadi tiveram as produções artísticas deles expostas em um painel, resultado das atividades desenvolvidas durante o Abril Azul. A psicóloga Ana Beatriz Pinheiro explicou que a proposta buscou estimular a expressão emocional e social dos jovens. Ela destacou que a arte se mostrou uma ferramenta essencial para a comunicação de muitos adolescentes.
“Alguns não conseguem falar como se descrever, mas conseguem por meio da arte. Então muitos desenharam árvores para mostrar a transformação ao longo do desenvolvimento, outros desenharam símbolos de jogos, que representam quem eles são”, explicou.
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Painel exibiu produções artísticas de crianças e adolescentes atendidos pelo Ciadi - Foto: Pedro Albuquerque
Segundo Ana Beatriz Pinheiro, o momento também proporcionou visibilidade e pertencimento. “Eles estão sendo vistos por todo mundo que está aqui hoje, então é uma oportunidade muito gratificante. Eles são protagonistas desse evento, estão muito felizes por estarem sendo percebidos pela sociedade”, ressaltou.
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Roda de conversa compartilhou experiências de mães cujos filhos possuem TEA - Foto: Pedro Albuquerque
PROGRAMAÇÃO
A programação oficial iniciou com uma apresentação cultural do grupo de adolescentes com TEA atendidos pelo Ciadi, que interpretou a música “Ninguém é igual a ninguém”, de Milton Karam. O evento seguiu com uma roda de conversa mediada pela psicopedagoga Luciana Bem, em que foram reunidos relatos que evidenciaram vivências no contexto do autismo. Participaram do momento a psicopedagoga Bruna Karla, mãe de Isabela Oliveira, e Kátia Cilene, mãe de José Roberto, ambas com filhos atendidos pelo Ciadi.
Durante a conversa, Bruna compartilhou a experiência de conciliar o conhecimento técnico com a realidade do cuidado cotidiano com a filha, destacando as dificuldades enfrentadas antes do diagnóstico. “Enquanto tudo era descartado, a gente tentava ser mais rígido, tentando não criar como uma menina mimada. Mas isso não funcionava, era pior. Então, foi um alívio entender o que estava acontecendo com a minha filha, até para conseguir me orientar”, relatou.
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Médica Higina Machado - Foto: Pedro Albuquerque
PALESTRAS E PAINEL
Na palestra “Autismo feminino: da invisibilidade no diagnóstico aos avanços científicos na identificação e intervenção”, a médica Higina Machado, que também é uma pessoa com TEA, abordou as limitações históricas dos critérios diagnósticos e a necessidade de revisão desses parâmetros de avaliação no diagnóstico das mulheres. Ela explicou que muitos testes foram construídos com base em perfis masculinos, o que contribuiu para a subnotificação de casos em mulheres.
A médica também destacou que muitos casos são mascarados por outras condições clínicas. “Muitas mulheres estão perdidas no sistema de saúde, porque o que aparece são as comorbidades, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares. E o autismo fica oculto”, explicou. No entanto, segundo ela, o cenário começa a mudar. “Hoje, com mais pessoas se assumindo, contando suas histórias, trazendo suas vivências, a gente já vê uma mudança de paradigma. Mas ainda há um caminho grande a percorrer”, avaliou.
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Psicólogo Riksberg Cabral - Foto: Pedro Albuquerque
O psicólogo Riksberg Cabral, que realizou a palestra "Um olhar sobre o TEA e suas repercussões nas habilidades sociais dos indivíduos", discutiu as repercussões do TEA nas habilidades sociais, destacando os desafios enfrentados em diferentes contextos.
“A gente precisa visualizar o indivíduo na sua totalidade, porque essas habilidades sociais são atravessadas por várias experiências ao longo da vida”, afirmou. Ele explicou que dificuldades na compreensão de regras sociais implícitas e sinais não verbais impactam diretamente a convivência.
O especialista também abordou o fenômeno do mascaramento. “Muitas pessoas autistas aprendem a reproduzir comportamentos sociais de forma muito mecanizada, conseguem imitar, se adaptar, e por isso acabam passando despercebidas”, explicou . No entanto, Riksberg Cabral alertou para os impactos disso. “Isso traz uma sobrecarga emocional e sensorial muito grande, porque exige um esforço constante para manter essa ‘máscara’. E em algum momento isso aparece, seja em casa, na escola ou em outros ambientes”, pontuou.
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Sargento da PMCE Flávio de Andrade - Foto: Pedro Albuquerque
No painel “Equoterapia e inclusão: o papel da Cavalaria do Ceará no desenvolvimento da criança com TEA”, o sargento Flávio de Andrade, da Polícia Militar do Ceará (PMCE), apresentou a prática como alternativa complementar no tratamento de crianças com TEA. “A equoterapia é uma terapia complementar que utiliza o cavalo para estimular diversos sentidos, além de trabalhar o equilíbrio, coordenação e aspectos emocionais”, afirmou.
O sargento também ressaltou que o atendimento exige critérios e acompanhamento especializado. Ele explicou que não são todas as crianças que são indicadas para realizarem terapia com equinos e, por isso, é necessário passar por uma avaliação multiprofissional. Ainda segundo o militar, o processo não é simples e envolve adaptação gradual. “Muitas crianças não montam de primeira, precisam primeiro se aproximar, tocar, criar vínculo. Tudo isso faz parte da terapia”, acrescentou o sargento Flávio de Andrade.
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Orientadora da Célula de Atendimento em TEA do Ciadi, Maria Luísa Pinheiro - Foto: Pedro Albuquerque
Encerrando o seminário, a orientadora da Célula de Atendimento em TEA do Ciadi, Maria Luísa Pinheiro, avaliou o encontro como um momento de transformação. “Foi uma tarde de muito aprendizado, de muita troca de experiências e, acima de tudo, de incentivo para que a sociedade tenha um olhar mais humano e inclusivo”, comentou. Para ela, o evento cumpre um papel fundamental. “Eu acredito que, a partir de hoje, muitas pessoas vão ficar mais atentas ao transtorno do espectro autista em mulheres”, concluiu.
Edição: Geimison Maia
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