Audiência propõe elaborar dossiê em defesa da titulação das terras do Córrego de Ubaranas
Por Pedro Emmanuel Goes04/09/2024 17:19 | Atualizado há 10 meses
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Elaborar um dossiê em defesa da titulação das terras da comunidade Córrego de Ubaranas, localizada em Aracati, foi um dos encaminhamentos extraídos de audiência pública realizada na tarde desta quarta-feira (04/09), pela Comissão de Direitos Humanos e Cidadania (CDHC) da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece). O debate atendeu a solicitação do deputado Renato Roseno (Psol).
A comunidade está sob ameaça de inclusão de seu território no leilão permanente da Agência Nacional de Petróleo (ANP). O processo está em andamento desde 2017, mas, até 2021, a comunidade não havia sido notificada pelos órgãos que acompanham o caso, como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Outras demandas acolhidas no debate incluem proibir o uso do “fracking”, técnica para extração de combustíveis fósseis do subsolo, no estado do Ceará; acelerar a titulação das terras quilombolas do Estado; realizar audiência pública com a Casa Civil para dar prosseguimento aos trâmites que envolvem a titulação das terras, assim como realizar uma visita do Incra ao território para conversar com os moradores sobre a situação.
De acordo com Renato Roseno, o caso engloba muitas violências, inclusive históricas, contra o povo de Córrego de Ubaranas, que, segundo ele, ocupa aquelas terras desde o século XVIII. “A falta de informação está deixando as pessoas preocupadas, sem entender o que acontece e, dessa forma, eles não podem nem se organizar para tentar revidar uma série de violências como essa”, comentou.
Durante a audiência, muitas falhas foram encontradas no processo de titulação dos quilombolas de Córrego de Ubaranas. Entre elas, o pedido de anulação do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) do território - necessário para dar seguimento ao processo de titulação pelo Incra - por parte da ANP, assim como a não comunicação da ação judicial por parte do Incra aos quilombolas.
O teor da ação, conforme a advogada Lourdes Vieira, do Escritório de Direitos Humanos Frei Tito de Alencar, órgão ligado à CDHC/Alece, ainda dispõe de argumentos racistas, que negam a identidade quilombola e a existência do território. “É algo absurdo, o texto carrega várias violações aos direitos humanos, mas há um recurso no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife, e esperamos que essa anulação do RTID seja revertida judicialmente para darmos continuidade ao processo de titulação das terras”, disse.
Os moradores da comunidade, Seu Dedé e Kilvia Pereira, lamentaram a situação e afirmaram sofrer perseguições, visto que a possibilidade de anulação do RTID tem impedido que os membros da comunidade tenham acesso a benefícios sociais.
Eles também chamaram a atenção para os possíveis impactos que a exploração de petróleo pode gerar dentro do território. “São quatro lotes planejados para serem extraídos dentro do nosso território e mais sete nos arredores”, alertou Kilvia.
A chefe de Governança Fundiária do Incra, Silvana Silveira, explicou que Córrego de Ubaranas já foi reconhecido formalmente como território quilombola pelo presidente do Incra/CE, mas o estágio seguinte exige um trâmite nacional que passa pelo Incra em Brasília, a Casa Civil da Presidência da República e até a assinatura do presidente da República.
A audiência contou ainda com a participação de representantes da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e da Defensoria Pública do Estado do Ceará.
Confira a íntegra da audiência pública abaixo:
Edição: Geimison Maia
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