Setembro Verde fortalece o protagonismo do Ceará em transplantes de órgãos no Brasil
Por Gleydson Silva29/09/2025 10:01 | Atualizado há 6 meses
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Setembro é mês de esperança e solidariedade. Com a sanção da Lei n.º 18.801/24, o Ceará instituiu oficialmente, há cerca de um ano, a campanha Setembro Verde, voltada à conscientização da doação de órgãos e tecidos. Mais do que uma política pública, a iniciativa representa um gesto de amor ao próximo capaz de transformar e salvar vidas.
O Brasil registrou em 2024 um recorde de transplantes realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com mais de 30 mil procedimentos — aumento de 18% em relação a 2022, de acordo com dados do Ministério da Saúde.
O Ceará teve participação nesse avanço. Foram contabilizadas 2.209 cirurgias do tipo no Estado. O número representa o maior já registrado desde 1998, quando o Ceará começou a realizar transplantes. Entre os destaques estão os transplantes de córnea (1.329) — que colocam o Ceará no topo do ranking nacional —, os transplantes de fígado (252) — que superaram este ano o maior marco histórico, que foi de 229, em 2019 — e os transplantes cardíacos (35), que também superaram o recorde de procedimentos realizados.
Em 2025, até o dia 9 de setembro, a Central de Transplantes do Ceará registrou 1.459 transplantes de órgãos, tecidos e medula, conforme a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa). O transplante renal é o procedimento envolvendo órgãos sólidos mais realizado no Ceará nesse período, com 192 cirurgias (com doadores vivos ou mortos). Outros transplantes em destaque são o de fígado, com 164 transplantes; 109 de medula óssea; 14 de coração e três de pulmão. Quando se trata de transplante de córnea, o Estado registra, até o momento, 971 procedimentos.
A orientadora da célula do Sistema Estadual de Transplantes (Cetra) da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), Eliana Régia Barbosa, avalia que esses números refletem o trabalho de equipes eficientes, aliado à solidariedade das famílias doadoras. “O Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Saúde, está sempre atento a essa causa e os brasileiros, diante dos nossos resultados, procuram o Ceará para realizar o procedimento. Precisamos reconhecer ainda a generosidade das famílias doadoras, que renovam a esperança de quem espera por um transplante”, ressalta em entrevista ao site da Sesa.
O CAMINHO DA DOAÇÃO

Ceará é um dos destaques nacionais em transplantes de órgãos e tecidos. Foto: Felipe Martins (Sesa)
Cada órgão possui um tempo limite para ser transplantado após a captação: enquanto coração e pulmões precisam ser transplantados em 4 a 6 horas, o fígado e o pâncreas têm um prazo de até 12 horas; os rins podem resistir até 48 horas fora do corpo, e as córneas, por sua vez, podem ser utilizadas em até sete dias. Esses prazos, muitas vezes apertados, exigem precisão, organização e cooperação por parte de toda a rede de saúde.
O processo começa ainda no hospital, quando é constatada a morte encefálica do paciente. Nesse momento, a equipe de saúde conversa com a família para levar o conforto no momento de luto e para explicar todo o processo de doação de órgãos. A decisão é sempre da família, e o diálogo é fundamental para que esse gesto seja possível.
Confirmada a autorização, inicia-se uma corrida contra o tempo. Profissionais especializados realizam a captação dos órgãos, que são avaliados e preparados para o transplante. A logística envolve transporte rápido e seguro — muitas vezes com o apoio de aeronaves — até os centros cirúrgicos onde os receptores já aguardam.
O coordenador da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer), coronel Marcus Costa, avalia que um único voo pode impactar várias vidas. De acordo com ele, a missão já começa levando a equipe de captação até a unidade de saúde onde está o doador e, em seguida, os levando até o paciente que receberá o transplante. “Isso possibilita que o órgão, logo após ser retirado do doador, possa ser imediatamente transportado, de modo que a sua vida útil tenha ainda uma efetividade maior, e, consequentemente, uma possibilidade de maior sucesso no transplante”, ressalta o integrante da segurança pública estadual.
Conforme o coordenador, ao longo deste ano já foram realizadas 14 missões. Em cada uma delas, é possível transportar vários órgãos simultaneamente, o que, após o transplante, garante qualidade de vida para alguns pacientes e representa a chance de sobrevivência para outros. “Para nós, da Ciopaer, é um orgulho e uma honra poder prestar esse serviço à sociedade cearense”, afirma.
VIDAS TRANSFORMADAS

Lídia dos Anjos segue acompanhada pela equipe do Hospital Geral de Fortaleza (HGF). Foto: Eva Sullivan (Sesa)
Além de reduzir a fila de espera por transplantes, o Setembro Verde presta homenagem aos doadores e suas famílias. São eles os grandes protagonistas dessa história: pessoas que, em um gesto de solidariedade, em um momento de dor, oferecem a chance de recomeço a quem vive a incerteza de uma espera.
A artista Lídia dos Anjos fez um transplante renal há 15 anos. Em entrevista ao site da Sesa, ela falou com gratidão da família que, mesmo em meio à dor da despedida, autorizou a doação dos órgãos de um ente querido. “Quando uma família, dilacerada pela perda, consegue dizer ‘sim’, ela não salva apenas um paciente. Ela devolve alegria a uma família inteira, faz sorrir amigos, renova a esperança de muita gente. Eu sou prova disso. Carrego comigo a certeza de que o amor salva”, conta.
Com essa lei, o Ceará reforça seu papel de liderança no País em ações de transplante e consolida a importância de se falar sobre o tema. Afinal, quanto mais pessoas compreenderem a relevância da doação e compartilharem esse desejo com seus familiares, mais vidas poderão ser salvas.
Além de falar sua intenção de doar órgãos para a família, é essencial esclarecer dúvidas sobre o que é mito ou verdade sobre o tema.
PARLAMENTO E SOLIDARIEDADE
A lei que instituiu o Setembro Verde no Ceará nasceu no Parlamento a partir do projeto de lei 895/23, de autoria da então deputada Gabriella Aguiar, hoje vice-prefeita de Fortaleza, e coautoria do deputado Guilherme Landim (PSB). Ao propor a campanha, ela avaliou que, apesar de a doação de órgãos e tecidos ser um gesto nobre que pode salvar vidas, a falta de informação e sensibilização ainda é um obstáculo para a obtenção de órgãos e tecidos necessários para os transplantes.
Em justificativa, Gabriella Aguiar aponta que a campanha contribuirá para que mais pessoas se tornem doadoras, entendendo o valor desse gesto altruísta. “A campanha também visa reduzir a fila de espera por transplantes, o que pode salvar inúmeras vidas, além de contribuir para que mais pessoas se tornem doadoras, entendendo o valor desse gesto altruísta”, argumenta.
Na Alece, tramitam outras propostas voltadas ao tema. O deputado Marcos Sobreira (PSB) é autor do projeto de lei 929/23, que visa criar o “Selo Ceará Para a Vida”, para reconhecer o trabalho de pessoas e instituições que contribuem para o aumento de doadores de órgãos e tecidos, bem como o desenvolvimento técnico-científico na área de transplantes.
O deputado Carmelo Bolsonaro (PL) sugere, por meio do projeto 90/25, a inclusão de informações voltadas à conscientização da importância da doação de órgãos em materiais didáticos das escolas da rede pública de ensino no Ceará.
Já o deputado De Assis Diniz (PT) é autor dos projetos de lei 735/24 e 854/25, que versam, respectivamente, sobre as diretrizes e estratégias para a implantação da política estadual de conscientização e incentivo à doação e transplante de órgãos e tecidos e sobre a instituição do selo de honra às famílias doadoras de órgãos no Ceará.
Edição: Vandecy Dourado/Lusiana Freire
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