Notícias

Memória de Vladimir Herzog é lembrada em solenidade alusiva à luta pelos direitos humanos

Por Ariadne Sousa
08/12/2025 18:28 | Atualizado há 4 meses

Compartilhe esta notícia:

Memória de Vladimir Herzog é lembrada em solenidade alusiva à luta pelos direitos humanos - Foto: Dário Gabriel

Entidades, ativistas e profissionais que atuam na defesa dos direitos humanos no Ceará foram homenageados pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), em sessão solene realizada na tarde desta segunda-feira (08/12). Na cerimônia, o nome Vladimir Herzog (1937-1975) foi lembrado como símbolo da luta contra a Ditadura Militar brasileira. 

Para a autora do requerimento que originou a homenagem, deputada Larissa Gaspar (PT), abordar esse momento da história recente do Brasil é fundamental para que ele não se repita. “Falar de memória, verdade e justiça é importantíssimo, principalmente porque nós continuamos, na atual conjuntura, vivenciando profundos ataques à nossa democracia e também uma profunda relativização da luta e defesa dos direitos humanos”, ressaltou.

Evocando a memória de Vladimir Herzog, a parlamentar lembrou que, em 2025, completaram-se 50 anos da morte do jornalista pelas mãos dos militares que comandavam o País na época, após comparecer espontaneamente à sede do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi/SP), para depor. Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura e teve seu falecimento anunciado oficialmente como suicídio. No entanto, provas de tortura desmentiram a versão, confirmando que se tratou de um assassinato político.

Na tribuna, Larissa Gaspar exalta luta pela democracia e pelos direitos humanos - Foto: Dário Gabriel

“Assim como no caso de Vladimir, nós continuamos lutando para que muitos outros também tenham a devida punição. Em março de 2025, o Estado brasileiro, por meio do Ministério dos Direitos Humanos, reconheceu formalmente Vladimir Herzog como anistiado político post-mortem, um ato essencial à justiça simbólica e à reparação histórica. É um reconhecimento tardio, é verdade, mas lembra que a memória e a justiça não têm data para expirar, que o combate à impunidade e à censura exige perseverança e que deve prevalecer sempre a verdade”, destacou Larissa Gaspar. 

Ainda de acordo com ela, as pessoas e movimentos homenageados nesta tarde têm um papel importante na defesa da democracia, na denúncia das violações de direitos humanos e na luta por políticas públicas que sejam efetivas para garantir a dignidade humana no País e no Estado. “Nós estamos trazendo aqui de forma representativa alguns sujeitos que incorporam essa luta na sua trajetória de vida”, completou a deputada. 

HOMENAGEADOS

Fundadora do Movimento Feminino pela Anistia do Ceará (MFPA) e irmã de Frei Tito de Alencar, Nildes Alencar agradeceu a homenagem e contou memórias do que viveu durante a Ditadura Militar no Brasil. “Toda a geração de jovens estudantes daquela época foi mal interpretada, houve uma decisão de destruir uma geração que trazia para seu povo uma resposta diferente para a construção da nação brasileira”, avaliou.

Nildes Alencar relembra os anos de opressão e a luta por liberdade - Foto: Dário Gabriel 

Ela exaltou também o papel das mulheres no enfrentamento às violações ocorridas no período. “Com pedaços de papel na mão, a gente começou, corajosamente, pelas ruas de Fortaleza, apresentando a palavra ‘anistia’, porque nós sabíamos que tínhamos que libertar os nossos presos, os nossos brasileiros e brasileiras”, relatou Nildes Alencar.

Representando o Instituto Vladimir Herzog e a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos, o conselheiro Marcelo Uchoa parabenizou a iniciativa e questionou ataques ocorridos contra a democracia nos últimos anos. “Herzog vive por meio do instituto, que inclusive move Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental depois da condenação do Brasil no caso Herzog para que o STF faça uma reinterpretação. E isso é dizer para essas pessoas que tentaram emplacar uma ditadura que eles não venceram, que venceu a resistência, a coragem e a força”, apontou. 

O presidente do Instituto Nordeste XXI, Francisco Bezerra, elogiou produções culturais que abordam a temática do Regime Militar, citando o filme “Ainda Estou Aqui”, que venceu na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025. “Então é a sociedade viva, quando o Estado se omite, a sociedade tem seus mecanismos de defesa. E nunca a ditadura de 1964 foi tão censurada, tão combatida, tão atacada quanto durante todo o período em que o filme foi lançado e em que ganhou prêmios pelo mundo”, pontuou.

Na cerimônia, também foram homenageados a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou, o Movimento Cristão pela Democracia, o Movimento Massafeira Livre, a Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE) e a Associação Cearense de Imprensa (ACI). Entre os que receberam certificados da Alece estão também Maria Luíza Fontenele, Irmã Cleide, Mário Miranda de Albuquerque, Dom Helder Câmara (in memoriam) e Dom Aloísio Lorscheider (in memoriam). 

Além das personalidades que se manifestaram durante o evento, a mesa da solenidade contou com a participação do cantor Ednardo e da líder do movimento Cristãos pela Democracia, Sinhara Garcia. Os presentes acompanharam ainda apresentações dos músicos Pedro Rogério, Rogério Franco e Ellis Mário. Os três interpretaram as canções "Cavalo Ferro" (1974), "Vento Rei" (1982) e "Ponta do Lápis" (1981). 

Assista à solenidade:

Edição: Lusiana Freire
 

Veja também