Quando o forró vira memória: o Ceará reconhece sua identidade em forma de música
Por Amanda Andrade*09/01/2026 12:06 | Atualizado há 2 meses
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Mais do que ritmo, dança ou entretenimento, o forró passa a ser oficialmente reconhecido como parte da memória viva do povo cearense. Em outubro de 2025, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) aprovou o projeto de lei n.º 594/25, que declara o forró patrimônio histórico-cultural e imaterial do Ceará, consolidando, no âmbito estadual, um reconhecimento que dialoga diretamente com a identidade, a história e o cotidiano da população.
A iniciativa é de autoria do presidente do Parlamento cearense, deputado Romeu Aldigueri (PSB), com coautoria dos deputados Carmelo Bolsonaro (PL) e Jô Farias (PT), sendo transformada na Lei n.º 19.513/2025, após a sanção do governador Elmano de Freitas. A medida, conforme destacado pelos parlamentares, reforça o papel do forró como expressão cultural estruturante do Estado, presente em festas populares, comunidades do interior e grandes centros urbanos, atravessando gerações e territórios.
Na justificativa do projeto, o autor destaca que o forró ultrapassa o campo musical e se afirma como manifestação social, afetiva e histórica do Ceará. Para Aldigueri, reconhecer o forró como patrimônio imaterial é reconhecer o próprio povo cearense, suas vivências e modos de existir. “O forró é mais do que uma manifestação musical: é uma expressão viva da alma nordestina enraizada na oralidade, na dança, na religiosidade popular, na tradição campesina e urbana. No caso do Ceará, o forró ocupa posição de destaque na formação de nossas tradições musicais e na dinâmica econômica e turística de nossas cidades”, ressalta.
Na avaliação do professor e pesquisador Robson Braga, doutor em Comunicação e Informação, o reconhecimento do forró como patrimônio histórico-cultural e imaterial do Ceará consolida uma prática cultural que já ocupa lugar central na identidade do Estado. Para ele, a iniciativa do Legislativo vai além do simbolismo e pode gerar efeitos concretos. “Esse reconhecimento não é apenas simbólico. Ele pode e deve se materializar por meio de políticas públicas de incentivo à cultura local, como editais de fomento e ações voltadas aos artistas e às práticas culturais relacionadas ao universo do forró”, afirma.
O pesquisador destaca ainda que o forró deve ser compreendido como um complexo cultural que envolve música, dança, linguagem, sociabilidade e memória coletiva. “O forró não é só música. Ele articula modos de expressão, formas de socialização, festas populares e até dimensões econômicas. Seja na versão tradicional ou contemporânea, ele funciona como um dispositivo de memória afetiva e social, que atualiza referências da vida sertaneja, da religiosidade, das relações entre interior e capital e do modo de festejar do povo cearense”, observa.
Essa dimensão viva do forró também é ressaltada pelo sanfoneiro cearense Nonato Lima, que avalia o reconhecimento como a reafirmação de uma herança que atravessa gerações. Para ele, o gênero carrega um legado iniciado por Luiz Gonzaga e que segue sendo atualizado pelos artistas contemporâneos. “O forró é uma manifestação cultural nordestina que nos foi deixada como herança por Luiz Gonzaga, e nós, que fazemos forró hoje, temos a missão de dar continuidade a esse legado. Fico muito feliz e honrado por integrar a nova geração de artistas do Ceará que representam a sanfona e o forró”, afirma.

Foto: Divulgação
Filho de sanfoneiro, Nonato conta que sua relação com o forró antecede a própria trajetória profissional. Ao longo da carreira, ele dividiu o palco com nomes como Dominguinhos, Fagner e Elba Ramalho, além de fazer turnês Brasil afora, experiências que reforçaram seu compromisso com a preservação do gênero. “Levar essa música adiante, dentro e fora do Brasil, e receber respeito e reconhecimento em outros países reforça o compromisso que tenho com essa arte, que faz parte de quem eu sou”, comenta.
Para o músico, o forró segue sendo um elemento central da identidade nordestina e deve ser mais explorado como ferramenta de formação cultural. “O forró já é a cara do povo nordestino. As escolas deveriam trabalhar mais essa manifestação cultural, para que as crianças entendam a importância do forró. Além disso, o estudo da obra de Luiz Gonzaga e de outros mestres do forró fortalece a memória cultural e ajuda na valorização da identidade nordestina”, defende o artista.
ECONOMIA, MERCADO E PERMANÊNCIA DO FORRÓ
Além de expressão simbólica e identitária, o forró ocupa um lugar estratégico na dinâmica econômica e turística do Ceará. Conforme destacado no projeto aprovado pela Alece, o gênero tem papel central na formação das tradições musicais do Estado e na movimentação de cadeias produtivas ligadas ao entretenimento, à cultura e ao turismo. Fortaleza se consolidou como um dos principais polos de produção e consumo de forró do Brasil, reunindo artistas, produtores e grandes públicos em casas de show, praças públicas e festas comunitárias.
O texto da lei também ressalta que essa dinâmica não se restringe à capital. Municípios do interior preservam formas autênticas de tocar, dançar e celebrar o forró, presentes em vaquejadas, festivais e eventos religiosos, como ocorre em cidades como Juazeiro do Norte, Quixadá, Iguatu, Limoeiro do Norte, entre outras. Essas manifestações mantêm viva a tradição e, ao mesmo tempo, impulsionam economias locais, fortalecendo circuitos culturais fora dos grandes centros urbanos.
Na avaliação do professor e pesquisador Robson Braga, o forró deve ser compreendido como um fenômeno que extrapola o campo artístico e envolve dimensões sociais, culturais e econômicas. Ele observa que o gênero articula festas populares, modos de sociabilidade e também uma indústria cultural estruturada, especialmente a partir do forró eletrônico, que passou a mobilizar investimentos, públicos diversos e novas formas de consumo cultural.
Já o sanfoneiro Nonato Lima destaca que viver do forró é uma realidade construída ao longo de décadas por artistas que transformaram a música em trabalho e sustento. “A sanfona e o forró me levaram a lugares que eu jamais imaginei conhecer”, afirma. Para ele, o reconhecimento institucional contribui para valorizar essa cadeia cultural e profissional, reforçando que o forró não é apenas herança simbólica, mas também meio de vida para músicos e trabalhadores da cultura.
Edição: Clara Guimarães
*Estagiária sob supervisão da editora Clara Guimarães
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