Notícias

Preservação da memória popular marca roda de conversa promovida pelo Malce

Por Pedro Emmanuel Goes
22/04/2026 17:42 | Atualizado há 1 hora

Compartilhe esta notícia:

Preservação da memória popular marca roda de conversa promovida pelo Malce - Foto: Dário Gabriel

O Memorial da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará Deputado Pontes Neto (Malce), órgão voltado para a preservação histórica e cultural do Poder Legislativo cearense, realizou, na tarde desta quarta-feira (22/04), a roda de conversa “Fortaleza em Trânsito: 300 anos de outras memórias”. Reunindo representantes de projetos e trajetórias ligadas à valorização da memória popular, a atividade faz parte da programação comemorativa da Alece pelos 300 anos da capital cearense, trazendo uma abordagem plural sobre a construção histórica e social da cidade.

O coordenador da Sala de Educação do Malce, o historiador Mateus Django, explicou que a roda de conversa faz parte dos eixos finalísticos do programa O Parlamento e sua História, que tem como proposta, dentro das atividades alusivas às comemorações dos 300 anos de Fortaleza, compor uma discussão sobre a memória da capital cearense envolvendo uma perspectiva mais “plural”.

Ele afirmou que, quando se pensa em memória, sempre se parte de uma perspectiva mais “clássica” ou “institucionalizada”, e que o objetivo do debate é transitar por outras memórias, que também compõem a identidade do povo fortalezense. 

“Apesar de todo o processo de colonização, existem povos que detêm memória e resistem. Então, queremos propor reflexões aqui. Fazer pensar sobre essas outras memórias que existem e atravessam todo o contexto social, político e econômico, ressaltando a importância desse resgate, feito principalmente pelos grupos periféricos, para a história da nossa cidade”, explicou Mateus Django. 

Um dos projetos que se debruçam sobre a preservação da memória de Fortaleza e foi apresentado durante o encontro é o Expresso Dragão, percurso educativo articulado pelo geógrafo e pesquisador Sérgio Rocha, que mergulha na história da comunidade do Poço da Draga e exalta sua importância para a vida cultural dos arredores. 

Geógrafo e pesquisador Sérgio Rocha.  - Foto: Dário Gabriel

De acordo com o pesquisador, o projeto atua no “turismo de contato”, levando grupos à comunidade do Poço da Draga para travar contato com moradores e marcos históricos “esquecidos” da cidade. 

Sérgio Rocha citou o exemplo da Ponte Metálica, ou Ponte Velha, que, conforme ele, foi o primeiro porto de Fortaleza. “Informações desse tipo são esquecidas pela mídia, nos debates acadêmicos, então o que buscamos é dar ênfase à identidade a partir do território”, explicou.

Outra iniciativa apresentada foi o Centro Popular de Documentação do Grande Pirambu (CPDoc). Criado em 1992, mas revitalizado apenas em 2023, é um arquivo comunitário vital para a preservação da memória, identidade e história de lutas do bairro Pirambu, em Fortaleza. O local guarda acervos fotográficos, documentais e audiovisuais sobre a formação urbana e a resistência de seus moradores.

A coordenadora do CPDoc, Magda Mota, chamou atenção para a importância dos arquivos comunitários e das comunidades para a preservação dos documentos, especialmente no contexto de bairros periféricos, como o Pirambu.

Magda Mota chama atenção para a importância dos arquivos comunitários. - Foto: Dário Gabriel

"É um bairro marginalizado, conhecido pela violência, mas que tem um centro de documentação. Os moradores podem até ir a outros lugares, mas não é em qualquer arquivo que ele vai encontrar a sua história, a história do seu povo, do seu território, de suas lutas por saneamento básico, por luz, por direito à terra”, disse.

Magda destacou também a "Grande Marcha do Pirambu", movimento popular realizado por moradores do bairro na década de 1960, mas que, de acordo com ela, “ninguém lembra”. Para a coordenadora, é a preservação da memória local que aponta para o futuro dos indivíduos e das sociedades. 

Representando o Coletivo Fortaleza Negra, que atua no resgate e na difusão da história negra de Fortaleza e do Ceará, seu fundador, Douglas Souza, reforçou que as populações têm atuado na preservação de sua história e identidade, na tentativa de fazer frente aos "silenciamentos e omissões da história oficial". 

Douglas Souza, do Coletivo Fortaleza Negra. - Foto: Dário Gabriel

Sobre isso, ele observou que a história do povo negro em Fortaleza corre em paralelo à história oficial até os dias de hoje, e que evidências dessa história são observadas no território. 

“A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, localizada no Centro de Fortaleza, onde foi estabelecido um dos nossos primeiros cemitérios, impunha rituais de sepultamento diferentes para aqueles nascidos aqui e para aqueles nascidos na África. Da mesma forma, o prédio do Estoril foi uma das primeiras casas de praia do nosso litoral, e foi construído por trabalhadores escravizados”, disse, salientando que algumas dinâmicas como essa seguem até os dias de hoje.

Edição: Gleydson Silva

Veja também